Por Marcelo Cavalcante

É raro, muito raro, raríssimo um placar de 0x0 se transformar, através do tempo,  num jogo inesquecível.  Exceto, claro, se valer título. Mas esse Sport x São Paulo não valia taça. Era mais um duelo válido pela Taça Heleno Nunes, competição criada pela CBF para agraciar times que foram eliminados do Campeonato Brasileiro e ficaram sem calendário em meio a temporada.

O que transformou esse duelo em inesquecível foi a atmosfera criada pelo Sport. A partida aconteceu num domingo,  dia 13 de maio de 1984. Aniversário de 81 anos do Leão da Praça da Bandeira. Além disso, o duelo marcava a reabertura da Ilha do Retiro, que passava um bom tempo fechada para reformas. Segundo informações dos jornais da época, o estádio estava sendo ampliado para comportar 65 mil torcedores. Pasmem!

No Recife, não se falava em outro assunto a não ser a reabertura da Ilha. A partida contra o bom time do São Paulo, que contava com estrelas como Valdir Peres, Oscar, Darío Pereira e Renato “Pé murcho”,  ficou em segundo plano. Ainda mais porque a diretoria do clube preparou algo inusitado: o desfile de um leão. Isso mesmo, um leão criado num sítio pelas bandas de Olinda, foi doado para o Sport e o clube decidiu mostrar para o torcedor como grande atração da partida.  Seu nome? Príncipe Charles.

A Ilha do Retiro estava abarrotada de torcedores alucinados para ver o Sport e o leão em campo.  Antes da bola rolar, o leão entrou em campo (Foto), enjaulado e deu uma volta inteira no estádio para delírio de crianças, jovens, adultos e idosos. A ideia era que após a realização da partida, Príncipe Charles ficasse numa jaula instalada na sede do clube para visitação pública.  Mas o bom senso prevaleceu e tudo foi cancelado. O então presidente Arsênio Meira viu o risco que correria se colocasse uma fera no clube. O presente, então, foi devolvido.

Quanto a partida, pouco se falou. O placar em branco foi justo para a pouca produtividade das duas equipes. Pior para o Sport, que precisava de uma vitória para quebrar a sequência de três jogos com resultados negativos. Mesmo assim, a torcida estava em festa. Afinal, estavam de volta à gloriosa Ilha do Retiro, a casa de todos rubro-negros.

A imagem ao lado é a homenagem que a tradicional Rádio Clube de Pernambuco fez ao Sport pelo seu aniversário e também pela reabertura da Ilha do Retiro. No texto, há referência ao dono do leão que doou ao clube.

Agradecimento pelas imagens cedidas a Ewerson Vasconcelos, do Museu do Sport, e Lula Moraes, da Rede Globo Nordeste.

Escalações das equipes:

Sport 0 x 0 São Paulo

Sport: País, Uchoa, Gil (Neco, 17 do 2°), Wecsley e Washington; Merica, Cléber e Neto; João Carlos, Nei (Luís Carlos, 23 do 2°) e Joãozinho. Técnico: Mário Juliato.

São Paulo: Waldir Peres, Paulo Roberto Costa, Oscar, Darío Pereyra e Gualberto; Zé Mário, Humberto e Renato (Márcio Araújo, 30 do 2°); Paulo César, Agnaldo e Zé Sérgio. Técnico: Valdir Joaquim de Morais.

Dia: 13/05/1984
Competição: Taça Heleno Nunes
Árbitro: Laerte Marquezine (PE)
Obs: A CBF, em crise financeira, não bancava as viagens dos árbitros e optava por escalar a arbitragem do estado que sediava a partida.