Dez anos não são dez dias. E dentro deste período, que estabelece o hiato do que chamamos de década, muitas histórias podem ser feitas. No caso de Zé Lucas com o Sport foi justamente isso que aconteceu. Uma trajetória que pode ser enxergada como curta para quem acompanha o futebol profissional do Clube, mas que passou longe, bem longe disso. É longa, bonita e com muitas nuances.
A primeira delas, no futsal, aos oito anos de idade. Luquinhas, o menino criado no Engenho do Meio, falava que queria ser jogador de futebol, mas a realidade naquele momento ainda era distante. Muitas águas tinham que passar por uma ponte que começou no futsal do Leão.

“Era o segundo semestre de 2016 e o Zé Lucas, Luquinhas naqueles tempos, chegou para fazer teste através de um pai que tinha um filho que jogava conosco e trouxe ele junto. No segundo treino, o Pipa (Felipe Portela, treinador da categoria na época) o aprovou de cara”, declarou Bruno Barbosa, atual treinador do Sub-11 do futsal leonino e que treinou Zé Lucas dos 10 aos 13 anos, justamente na migração do garoto ao campo.
No futsal, Zé Lucas colecionou títulos e grandes momentos. Fez gols em finais de Campeonatos locais, brilhou com prêmios individuais de diversos torneios e levantou troféus nacionais de expressão, como a tradicional Taça Brasil. Com 15 anos, era protagonista no Sub-17. Com 11, no Sub-13, com 13, no Sub-15.
“Sempre foi o meu capitão. Um líder tímido, que chegou devagarinho, mas se transformou. O esporte e a vida se misturam, e quando recebemos atletas nessa faixa de idade, vamos observando as mudanças, crescimento, personalidade. Além do aspecto técnico, o Zé Lucas sempre foi diferenciado de uma forma humana”, afirmou Bruno.

O pontapé inicial no campo se deu depois que o Sport começou a quantificar a sua Categoria de Base também com categorias menores, unindo o futsal aos gramados, periodizando treinos semanais aos garotos pelo menos duas vezes na semana. Hoje coordenador da base rubro-negra, Felipe China foi um dos idealizadores do projeto que potencializou Zé Lucas.
“A história do Sport no futsal é muito forte, com grandes jogadores tendo passado por aqui. Alguns que seguiram carreira no próprio futsal, em clubes gigantes do mundo, e outros que acabaram no campo, como o Pedro Lima e o Zé Lucas. Temos o caso do Matheus Cunha, que atuou na última Copa do Mundo e jogou futsal aqui, mas não havia a transição para o campo na época. O Zé Lucas era desde já um atleta que apontávamos projeção de chegar ao profissional e as coisas aconteceram de um modo bem positivo”, evidenciou China.

Justamente no dia do pontapé inicial do projeto futsal-campo com as categorias de iniciação, em 14 de julho de 2021, Zé Lucas foi o escolhido para falar e ser o personagem da novidade. Treinando no Campo Auxiliar, ele não pensou duas vezes em falar qual era o seu sonho: ergueu a cabeça e apontou para o alto, ao lado dele, estava a Ilha do Retiro. “Meu sonho é jogar ali”. Sucinto, o desejo tornou-se destino quatro anos depois.
Negociado no último sábado com o Cruzeiro, Zé Lucas, que chegou como Luquinhas, deixa um legado de dezenas de troféus pelo Leão, tanto no futsal, quanto na base. Medalhas diversas, jornadas inesquecíveis, como o gol do título nos últimos segundos, na Copa Pernambuco Sub-11. Na já mencionada Taça Brasil, a final conquistada contou com outros dois gols do meio-campista capitão do Brasil na última Copa do Mundo Sub-17.
Mas foi no Profissional do Clube que o as páginas ganharam letras garrafais e puderam ser lidas definitivamente. Juntando tudo que foi construído dentro do Sport, na equipe principal Zé atuou em 57 partidas e foi bicampeão pernambucano. Barba, cabelo e bigode. Um marco que também virou tatuagem em sua vida.
“Foram dez anos aqui. Um bom tempo da minha vida tendo a camisa do Clube como segunda pele. O Sport me abriu as portas e me formou, a gratidão e a instituição estarão para sempre guardadas no meu coração”, declarou, no último dia depois de mais de outros três mil e seiscentos como atleta rubro-negro.

