Em um 07 de fevereiro como hoje, mas em 1988, o Sport conquistava o Brasil e gritava a plenos pulmões que era campeão brasileiro. Uma conquista que é completamente relacionada ao DNA do Clube: com garra, brio, valentia e muita resistência. Neste sábado, o título chega ao seu 39ª aniversário, celebrado com relatos de grandes personagens que escreveram os seus nomes de forma fincada nas páginas rubro-negras.
Em Curitiba..
O tempo andou e o destino juntou Mauro Madureira e Ribamar na vida. Hoje, ídolos das décadas de 70 e 80, respectivamente, atuam juntos e dão aulas em uma Escola de Futebol de Curitiba. Foi assim que o Site Oficial do Sport encontrou Ribamar, que brilha os olhos quando fala de 1987, em um resgate que carrega orgulho em cada uma de suas falas.

Um marco
“Chegar ao Sport foi um marco para mim, o meu primeiro time no futebol nordestino. Estava no Santos e depois de um desentendimento com o técnico da época tive essa opção, em uma negociação que também envolveu outros jogadores”, disse primeiramente, confessando o modo que o Leão foi conquistando o seu coração.

Conquistado pela torcida do Leão
“Pisei no Recife imaginando voltar rapidamente ao eixo Rio-São Paulo, mas a ideia foi completamente modificada conforme os dias foram passando no Sport, principalmente pelo enorme carinho da torcida comigo, além do próprio tamanho do Clube”, admitiu.
Encontrar-se com as mãos na taça no fim era um longo caminho e o início deixava algumas incertezas. Remodelado, o Sport entrou no Brasileiro com uma cara bem diferente do primeiro semestre.
“Começamos a caminhada com um time bem distinto ao que jogou o Pernambucano, uma equipe muito jovem, já com o Emerson Leão de treinador. De experientes havia eu, o Robertinho, Estevam Soares, Ademir Lobo. Só que nos juntamos com uma turma muito qualificada e de bastante personalidade, que eram os Leões da Base da época: Nando, Flávio, Dinho, Disco, Rogério, João Pedro, entre outros”.
A força da Ilha do Retiro
Ribamar marcou uma geração. Cabeça erguida, trato com a bola raríssimo e muito talento ditavam a criatividade no meio-campo do Sport. Um craque, mas que elege outro trunfo como determinante para a conquista do Brasileiro: a força da Ilha do Retiro.
“A ilha do Retiro era nosso maior triunfo. A energia nos jogos e a forma que os adversários reagiam a torcida nos ajudava demais. A nossa equipe era bastante entrosada e jogava em velocidade. Tínhamos uma jogada pela direita que todos sabiam, mas não conseguiam marcar”, relatou, com o sorriso na feição.

Acreditar que seria possível
Dentro de uma campanha vencedora, existe sempre um momento que o coletivo abraça e começa a acreditar na possibilidade de ser campeão. Ribamar elege esta nuance no grupo leonino da época com alguns resultados positivos fora de casa, que se uniram com a força da Ilha do Retiro.
“Fizemos uma viagem com vários jogos fora de casa. Goiás, Santa Catarina e São Paulo, não perdemos nenhuma partida, vencendo e empatando fora. Foi aí que voltamos ao Recife com a sensação que dava para ser Campeão”.

Momento mais difícil da campanha
As eleições depois de uma grande conquista também elegem um momento mais complicado, em que a superação teve que tomar conta de todos para o desafio ser superado e o caminho continuar aberto. Ribamar conta as experiências dos jogos contra Guarani e Bangu, dois grandes times da época.
“Tivemos jogos bem duros contra Bangu e Guarani. Eram nada mais nada menos que o vice-campeão de 1985 e o vice-campeão de 1986, uma temporada anterior. As duas equipes eram as mesmas que conseguiram estes feitos, sem nenhuma mudança, pelo contrário, algumas qualificações até. Quando os superamos, tivemos uma convicção muito grande que o título seria nosso”, garantiu.

Se alongando e entrando na questão da maior dificuldade para fazer com que todo rubro-negro cante que 87 é nosso nos dias atuais, Ribamar enalteceu ainda mais os adversários, também lembrando de episódios difíceis com a arbitragem.
“Enfrentamos uma pressão incrível com a arbitragem nos jogos com o Bangu, por tudo que envolvia o clube deles naquela época. E com o Guarani o desafio era técnico, um esquadrão de vários jogadores da Seleção: Ricardo Rocha, Evair, Mauro Silva, João Paulo, Paulo Isidoro. Mas tínhamos também um time muito forte e a Ilha do Retiro do nosso lado”.
Confidência de bastidores antes da grande final
Enfim, a final! Um duelo esperado e que contou com muita luta para chegar ao momento. Dois grandes times, com elencos de grandes jogadores. O Brasil esperava ansioso e na Ilha do Retiro os bastidores ferviam.
“Pessoalmente falando, a final para mim foi bem atípica. Aconteceram alguns fatos que me deixariam de fora do jogo. Na sexta-feira, em um coletivo com bola, forcei o ligamento da perna direita e corri para o teste de vestiário. A notícia foi a pior possível: foi constatado que eu não reunia condições de ir para o jogo”, começou por relatar Ribamar.
Uma reunião de vestiário, no entanto, faria com que o craque entrasse em campo naquele dia 07 de fevereiro.
“E aí foi aquela coisa que só acontece em jogos com magnitude de grandes decisões. Fizeram uma reunião na sala do técnico Jair Picerni e me chamaram. Estavam lá o Estavam Soares, capitão, o Betão, o Robertinho e o Rogério. Falaram para eu me uniformizar pois iria para o jogo. Falaram em alto tom que iriam se doar por mim, pelo Sport e pelo troféu, e que minha presença atrairia marcação. Foi incrível, joguei até os 30 do segundo tempo, sendo substituído pelo Augusto. Depois entrei em tratamento para cuidar da lesão”.

“Senti que era nosso naquele momento”
O gol de Marco Antônio causa euforia imediata em qualquer torcedor do Sport. A narração de Roberto Queiróz é uma das mais vistas e ouvidas de forma atemporal. O momento também está eternizado na mente de Ribamar, que tinha certeza do que aconteceria depois da reunião mencionada.
“Foi justamente durante o período que estive na sala do treinador que pude visualizar o título de campeão brasileiro em nossas mãos. A união pelo objetivo e pelo Sport era muito grande, quando me lembro começo a ficar arrepiado de forma automática”.
“O Sport é o meu maior amor”
Além do Sport, Ribamar atuou em outras camisas gigantes do Brasil. Santos, Palmeiras, Corinthians, Fluminense. Para o eternizado meia rubro-negro, o Clube é um marco tanto na sua carreira, como na sua vida.
“O Sport é o meu maior sucesso no futebol profissional. Foi aí que eu deixei de ser um jogador e virei um atleta. Foi onde tive as minhas maiores alegrias, conseguindo vencer também o Pernambucano e ser eleito o melhor jogador. Posso dizer com grande franqueza que o Sport é o meu maior amor”, confidenciou com forte emoção.

Um furacão chamado Betão: história iniciada cinco anos antes
Morando em Abreu e Lima, onde trabalha na prefeitura municipal da cidade, o lateral-direito Betão foi outro que marcou geração e está em qualquer Seleção de Todos os Tempos do Sport para quem o viu jogar. Sua força, arranque, velocidade, cruzamentos e potência no chute, que culminou em um dos gols mais marcantes em 1987 fizeram história no Clube.
Elencado como um dos experientes de um grupo muito jovem, naquela temporada a ida para a Ilha se tratava de um retorno. Afinal, o ala já havia passado no Leão em 1982, cinco anos antes, sendo assim feito Ribamar, o seu primeiro time no Nordeste. Betão chegou em uma ronda de negociações que envolveu um grande ídolo rubro-negro e para substituir uma perda que deixou o futebol pernambucano em choque.
“Havia sido campeão gaúcho no Internacional e entrei em uma negociação com o Roberto Coração de Leão. Ele foi para o Sul e eu cheguei ao Sport. Acabei sendo contratado para ser uma reposição ao Carlos Alberto Barbosa, um grande lateral-direito, também ex-Inter, que acabou falecendo na Ilha do Retiro, após um ataque do coração contra o XV de Jaú”.

De volta para fazer história
Betão deixou uma grande impressão. O Leão foi campeão pernambucano em 1982 e fez um bom Brasileiro em 1983, indo até as quartas de final, sobressaindo-se em um grupo que tinha Grêmio e São Paulo e passavam apenas dois. Com 21 anos, ele rumou ao Santos, mas a história com a camisa do Maior do Nordeste estava muito longe de terminar.
Consolidado por um desejo mútuo de um namoro que não havia terminado de vez, mesmo com a distância, o retorno aconteceu em 1985. Betão voltou e teve impacto novamente, com o Sport fazendo outra vez excelente campanha no Campeonato Brasileiro, sendo o time com mais pontos entre todos na primeira fase geral, eliminado apenas nas quartas em duelos de dois empates contra o Coritiba, que se tornaria campeão mais tarde.
“No futebol, o Sport foi a minha casa. O Clube que me encontrei enquanto jogador e que fui muito feliz, sendo reconhecido desde aquela primeira passagem, em 1982, até hoje, já depois que tudo passou. É realmente uma bonita história que guardo com orgulho na minha vida.”

“Não fui para a Copa do Mundo porque deixei o Sport”
Betão foi tão marcante na Ilha do Retiro, que faz parte de um seleto grupo de atletas que foram convocados à Seleção Brasileira defendendo o Sport. O lateral atuou em amistosos contra Portugal e País de Gales e acredita que teria ido para a Copa de 1986 se não tivesse deixado a Praça da Bandeira.
“Tive essa alegria de vestir a camisa da Seleção Brasileira enquanto defendia o Sport. Posso dizer que só não fui para a Copa do Mundo de 1986 porque deixei o Clube ao meio de um momento pessoal e técnico muito bom. Se tivesse permanecido no Recife eu tenho certeza que teria disputado aquele Mundial”, afirmou convicto.

Enfim 87: o pacto na Ilha
Com 63 anos feitos no último dia 04, ele endossa ainda mais o que Ribamar falou sobre a força e representatividade da Ilha do Retiro na conquista do título brasileiro. Para o ex-lateral-direito, simplesmente não havia como qualquer adversário ser capaz de encarar o Leão no Recife.
“A Ilha do Retiro era incrível. Simplesmente não tinha como para ninguém. Respeitávamos os adversários, mas a verdade é que amassávamos todos eles. Havia um pacto com o Emerson Leão que até os 15 minutos tínhamos que fazer o primeiro gol e parecia que a torcida sabia disso. Eles não paravam nas arquibancadas e o nosso time tinha uma forma de jogar que não deixava isso cessar”.

Uma certeza chamada Emerson Leão
Em relação a convicção em ser campeão brasileiro, Betão carrega uma percepção pouco diferente de Ribamar. Na Ilha há mais tempo e já tendo feito parte de campanhas que deixavam um gosto de que podia ter ido além, em 1987 o ânimo do lateral foi completamente renovado com a efeitivação de Emerson Leão, até então companheiro de time, como o técnico da equipe.
“Comecei a acreditar no título desde a efetivação do Emerson Leão como o novo treinador do Clube. Ele era o nosso colega e assumiu a equipe mandando alguns jogadores embora, ficando com o elenco que sabia que poderia contar para tudo: dentro e fora de campo. Nos fechamos muito e trabalhamos bastante, entendendo que seria uma oportunidade tanto para nós, quanto para ele, em seu primeiro trabalho fora das quatro linhas”.

O jogo contra o Bangu
Betão e Ribamar voltam a concordar sobre o maior desafio dentro da dourada trajetória que levou ao troféu. Na memória do gaúcho de Pelotas, a partida contra os cariocas, vice-campeões brasileiros dois anos antes, foi difícil e peculiar, por tudo que era envolvido no extracampo.
Em clima de guerra e recheado de polêmicas fora dos gramados, com dificuldades no acesso ao Estádio, vestário e a arbitragem, o duelo frente ao Bangu teve Betão como protagonista. Ele marcou um dos gols na derrota por 3 a 2 em Moça Bonita no jogo de ida, e quase derrubou a Ilha do Retiro em um tento histórico na partida de volta, vencida pelo Sport por 3 a 1, resultado que garantiu a vaga na grande final.
“O jogo contra o Bangu foi o momento mais difícil, mas apenas até começar a partida na Ilha. Por tudo que aconteceu lá no Rio de Janeiro, e até mesmo antes do apito inicial aqui no Recife. É engraçado, estávamos em uma fase tão boa, que nem considero uma partida de dificuldade elevada, mas acabou sendo o mais marcante, sem dúvida”.
Gol de Betão contra o Bangu: um dos mais históricos da Ilha do Retiro.
“No Sport eu sempre fui iluminado”
Misturando nostalgia com emoção, os sentimentos de Betão são aflorados quando ele lembra dos jogos contra o Guarani, que definiriam qual dos dois clubes se tornaria campeão brasileiro. O Leão em busca de seu primeiro título nacional, enquanto o Bugre, vice um ano antes, corria atrás do bicampeonato, após ter vencido em 1978.
“Foi uma grande final. Vivíamos fase mágica, mas enfrentamos um adversário que tinha simplesmente uma base na Seleção Brasileira. No Sport eu sempre fui iluminado, fiz o gol do empate em Campinas e depois cruzei a bola para o gol do título, na cabeçada do Marco Antônio. É impossível não recordar e voltar no tempo, viver aquela emoção novamente dentro da memória, foi realmente especial”.

Um grupo campeão
Entre os causos de um elenco unido e focado no objetivo de fazer história, tudo que acontecia fora de campo refletia nas quatro linhas. O ambiente alegre fazia com que algumas vezes faltasse até tempo para ficar ansioso ao meio das decisões. Um personagem marcante, Rogério, cria da base rubro-negra, está guardado na mente de Betão até hoje.
“Um grupo realmente campeão. Fantástico. Não conseguíamos nem ficar ansiosos, pilhados, porque tinha um cara na concentração que não deixava, o Rogério. Era um astral impressionante, sempre nos levantando e deixando a energia lá em cima. Ele continua sendo fora de série, e digo isso também no campo. O nosso lado direito era eu, o Ribamar e o Robertinho e ele corria por nós três. Um personagem essencial, entre outros tantos, naquela conquista”, finalizou Betão.

