A democracia do Sport assegura a qualquer grupo político o direito de fiscalizar, cobrar e divergir. Esse direito é legítimo e deve ser respeitado. Mas a crítica responsável precisa considerar o quadro completo, e não apenas a parte que melhor serve a uma narrativa eleitoral.
A atual gestão completa hoje 232 dias de um mandato de transição de apenas 379 dias. Não escondemos que o desempenho recente na Série B está abaixo do que desejamos. Também não tratamos como normais as eliminações nas competições de mata-mata. Futebol exige cobrança, decisões e correções.
Isso, entretanto, não autoriza que se apague o restante da temporada.
O Sport conquistou o tetracampeonato pernambucano, chegou à semifinal da Copa do Nordeste e realmente fomos eliminados na QUARTA fase da Copa do Brasil. Nos nove anos anteriores, o clube havia sido eliminado cinco vezes logo na primeira fase da Copa do Brasil. Na Copa do Nordeste, a semifinal de 2026 iguala ou supera seis das nove participações anteriores desde 2017. Portanto, os resultados podem e devem ser criticados, mas não podem ser reescritos.
A posição atual na Série B é insatisfatória, mas a competição está na metade e permanece aberta. A responsabilidade da gestão não é decretar antecipadamente o fracasso nem fabricar otimismo. É trabalhar para corrigir a trajetória.
Também não utilizamos a situação herdada como desculpa, mas como ponto de partida do diagnóstico. O Sport começou em 2026 rebaixado, com mais de R$70 milhões em dívidas vencidas, aproximadamente R$24 milhões em salários atrasados e R$27 milhões em aquisições de atletas. Havia apenas sete jogadores na composição inicial do elenco, dois deles lesionados, além da ausência de treinador, executivo de futebol e de uma estrutura administrativa minimamente organizada. A sede e diversas áreas do clube estavam profundamente depreciadas.
Em pouco mais de sete meses, foram implantados centros de custo, gestores responsáveis por orçamento, indicadores de desempenho, controles financeiros e novos processos de contratação e compliance. Houve redução superior a 60% na folha recorrente, reestruturação do elenco, reorganização dos departamentos e lançamento de um novo programa de sócios, voltado também para os 4 milhões de torcedores do Sport. O plano passou por diversas adequações para contemplar as categorias estatutárias do clube.
Também foram realizadas inúmeras intervenções no patrimônio: na sede, no CT, na Ilha do Retiro, nos banheiros, nas arquibancadas, nas salas de imprensa e nos camarotes. O campo auxiliar está sendo completamente recuperado, sem qualquer custo para o Sport.
Isso não significa que todos os problemas estejam resolvidos. Significa que existe trabalho em andamento — e trabalho documentado.
A crítica à atualização do Portal da Transparência merece atenção e correção. Informações desatualizadas devem ser atualizadas. Mas chamar o portal de “fachada” ignora a publicação do panorama financeiro herdado, dos relatórios de jogos, borderôs, dados de público, movimentações de atletas, demonstrações financeiras e do relatório trimestral de gestão. Também ignora a realização, por sete meses consecutivos, do Bate-Papo com a Gestão, aberto a sócios sorteados. Transparência não é uma peça de propaganda: é um processo permanente, que precisa ser continuamente aperfeiçoado.
Sobre Zé Lucas, é necessário separar expectativa orçamentária, avaliação, sondagem e proposta concreta. O orçamento projetava uma receita de R$ 40 milhões. Projeção orçamentária não é proposta de mercado nem garantia de realização.
Desde dezembro de 2025, o Sport não recebeu proposta formal do exterior pelo atleta. O Botafogo apresentou um modelo condicionado a metas, que foi recusado. O Flamengo ofereceu €1 milhão por 10% dos direitos econômicos, proposta igualmente rejeitada. O Cruzeiro iniciou a negociação oferecendo US$ 4 milhões por 60%. Após cinco horas de tratativas, a gestão elevou a parte financeira para US$ 5 milhões, acrescentou R$1 milhão de compensação, preservou 20% dos direitos econômicos de Zé Lucas e adquiriu 35% de Murilo, atleta que disputou o Mundial Sub-20 pela Seleção Brasileira.
O Sport receberá aproximadamente R$26,5 milhões no curto prazo, manterá participação relevante em uma futura transferência e diversificará seus ativos. Pode-se discordar da decisão, mas não é correto reduzi-la ao valor imediato nem compará-la com propostas que nunca chegaram à atual gestão. O mercado não paga aquilo que um clube deseja; paga aquilo que está disposto a oferecer em determinado momento.
Também é preciso lembrar que o valor efetivamente recebido pelo Sport na venda de Pedro Lima foi bem diferente do montante total divulgado para a operação. Além disso, existe uma cobrança superior a R$10 milhões por parte de seus representantes, atualmente discutida judicialmente. Comparações responsáveis precisam considerar o valor líquido, as condições de pagamento, as obrigações assumidas e os direitos preservados em cada negociação.
SAF e retrofit da Ilha do Retiro são assuntos sérios demais para serem tratados como respostas emergenciais a uma crise política. O retrofit foi estimado em aproximadamente R$620 milhões, e o que existe até agora é uma viabilidade preliminar aprovada pela Prefeitura, não um projeto executivo concluído nem financiamento contratado. A gestão deve preservar essa viabilidade administrativa, inclusive solicitando sua prorrogação, mas somente assumirá uma obrigação dessa dimensão com estudos detalhados, fontes de financiamento, governança e segurança institucional.
O mesmo vale para a SAF. Ela não é um empréstimo de emergência nem uma palavra capaz de resolver problemas históricos. Envolve patrimônio, controle, avaliação econômica e o futuro do clube. Uma decisão dessa magnitude exige um Conselho Deliberativo participativo, estudos independentes e debate institucional qualificado, condições difíceis de conciliar com reuniões ordinárias que, por vezes, não conseguem reunir sequer dez conselheiros.
Quanto à análise das contas de 2025, foi contratada uma consultoria externa, com previsão de conclusão entre o final de agosto e o início de setembro. Se forem identificadas irregularidades, serão adotadas as providências cabíveis. Se não forem, isso também será informado. Investigar com método e responsabilidade não é criar cortina de fumaça.
As portas do Sport sempre estiveram abertas. Divergências poderiam e deveriam ser discutidas dentro do clube, com documentos e responsabilidade. Levar o debate diretamente aos jornais pode produzir repercussão política, mas não ajuda a pagar dívidas, reconstruir o patrimônio, fortalecer o futebol ou recuperar a confiança do mercado.
O futebol mudou. Para atrair atletas, executivos, patrocinadores, financiadores e investidores, um clube precisa oferecer três fundamentos: credibilidade, previsibilidade e transparência. A instabilidade política permanente, que não começou nesta gestão, fragiliza exatamente esses três ativos.
Não pedimos silêncio nem concordância. Pedimos responsabilidade. A fiscalização fortalece o Sport; a antecipação eleitoral o enfraquece.
O Sport precisa parar de esconder seus problemas debaixo do tapete, mas também precisa parar de transformar cada dificuldade em instrumento de disputa política. Neste momento, a política deveria estar em segundo plano. O clube tem menos de cinco meses para prosseguir na reorganização das finanças, recuperar o desempenho esportivo e concluir com responsabilidade uma gestão de transição.
O Sport é maior do que qualquer grupo, qualquer gestão e qualquer eleição.
É hora de trabalhar pelo clube inteiro, não apenas pela metade do copo que interessa a cada lado. Seguimos dispostos, disponíveis e desarmados para o diálogo aberto em prol da maior instituição esportiva de todo norte e nordeste do país.
Matheus Souto Maior
Presidente
Sport Club do Recife
