No Sport, formação não é só treino, jogo e resultado. A rotina dos Leões da Base também passa, todos os dias, por sala de aula, frequência, acompanhamento pedagógico e um conjunto de regras que tornam a escola parte inegociável do projeto do atleta.
Em um cenário em que muitos jovens vivem longe da família e têm o futebol como principal horizonte, o Leão estrutura um fluxo para garantir presença, desempenho e responsabilidade, especialmente entre os atletas alojados, para quem a base vira, na prática, casa, rotina e referência.
A regra de ouro é simples: não existe atleta de base sem escola. Ser menor de idade e estar fora do ambiente escolar não é opção, e o Sport trata isso como prioridade institucional, não como “detalhe administrativo”. O trabalho é para evitar que atletas fiquem apenas no ensino remoto, realidade comum para quem chega de outros estados, e inserir o estudante no presencial sempre que possível.
A lógica é de proteção e desenvolvimento: convívio, disciplina, rotina, interação e uma vida que não se resume a tela e quarto. Para o atleta, estar na escola é parte do treino invisível.
Com 14 anos de trabalho como assistente social dos Leões da Base, Patrícia Durão resume a escola como base que ninguém tira do atleta e reforça que, na rotina da formação, isso é tratado como prioridade.
“A escola é fundamental. Não é só para o atleta, é para o ser humano. O conhecimento ninguém tira de você”.
O processo começa assim que o atleta chega ao CT e é integrado ao departamento. A documentação é reunida rapidamente, o contato com a família é acionado para coletar o que falta e a equipe faz a ponte com a escola para garantir vaga e matrícula.
A partir daí, o Sport arquiva uma declaração de matrícula e mantém o controle formal da situação escolar do atleta, garantindo que o vínculo educacional esteja regularizado desde o primeiro momento.
Esse fluxo é sustentado por uma parceria importante com uma escola estadual próxima ao CT, que já tem histórico de relação com a base e entende a realidade do futebol de formação. A gestão escolar compreende viagens, jogos e convocações, mas a mão é dupla: o Leão também corre atrás, justifica, mantém diálogo e organiza o retorno do atleta para não deixar a vida acadêmica “solta”. Em resumo: não é só cobrar frequência, é criar as condições para que ela aconteça.
Quando o atleta viaja para competições ou para a Seleção, o acompanhamento segue de perto. A base busca atividades, retira tarefas com professores e encaminha o material para o atleta cumprir fora da escola. A lógica é simples: se o atleta não pode estar presente, ele continua participando.
O mesmo vale para períodos de lesão. Quando há limitação de locomoção, o setor aciona a escola, formaliza as justificativas e garante que as atividades cheguem até o atleta, com suporte do departamento médico para emissão de atestado quando necessário. É uma rede de apoio que envolve escola, família, Sport, comissão técnica e área médica.
A logística também é pensada para que transporte não vire problema, nem desculpa. Embora a escola tenha transporte próprio, o Clube fornece transporte da própria instituição com van ou micro-ônibus para ida e volta, com rotas e horários organizados por turnos.
Há planejamento de saída e retorno, contato direto com responsáveis e comunicação com a escola para confirmar horários e situações específicas. Se o atleta passa mal, larga mais cedo ou surge qualquer imprevisto, existe estrutura para buscar e trazer com segurança. É rotina de responsabilidade com começo, meio e fim.
Mas o ponto central vai além de “estar matriculado” ou “pegar van”. O Leão trabalha a escola como ferramenta de formação humana, com um controle diário de presença e um sistema de acompanhamento que tenta enxergar o que está por trás de cada ausência.
Gilvânia Santos, pedagoga dos Leões da Base, destaca que a responsabilidade é construída nos detalhes e que o atleta aprende isso desde o portão do CT: rotina, regra, organização e compromisso.
“Se a gente não tiver regra e organização, não existe formação. Eles estão longe da família, estão representando um Clube grande e precisam entender que tudo isso faz parte do processo.”
A pedagoga faz chamada, monitora, confere com a escola e não trata falta como algo automático: se não entrou em sala, se ficou no corredor, se saiu mais cedo sem justificativa, a informação chega e o trabalho é acionado. E então entra um pilar que se repete no discurso e na prática: responsabilidade é parte do projeto. Responsabilidade também é rotina. É acordar para ir à escola. É respeitar horário. É entender que o atleta está representando a família e uma camisa pesada. É cumprir regras de alojamento, refeitório, treinos e convivência.
Patrícia também destaca que, para quem vive alojado, esse cuidado precisa ser diário e constante, porque o departamento assume uma parte grande da responsabilidade que antes estava com a família.
“Os pais confiam os filhos ao Clube. Então a gente acompanha de perto, cobra, orienta e faz o atleta entender que estar na escola é tão parte do processo quanto estar no treino.”
A base trabalha com uma lógica clara: é um ambiente de formação de atletas, mas também de ser humano. Não é “passar a mão na cabeça”. Para os alojados, especialmente, isso ganha peso: longe dos pais, a rotina inclui orientar, cobrar, acolher e corrigir, com acompanhamento constante e comunicação direta com as famílias. O controle escolar, inclusive, tem impacto esportivo. O atleta entende, desde cedo, que a escola não é um acessório: ausência recorrente, queda de rendimento e falta de compromisso geram consequências e são tratadas junto à comissão técnica.
Na prática, isso pode resultar em o atleta treinar em separado por um ou dois dias como medida educativa e, em situações mais graves, até mesmo ficar fora de relações para jogos. O objetivo não é punir por punir, mas educar. A ideia é criar senso de consequência, disciplina e entendimento de processo, tudo aquilo que também define quem evolui no futebol.
A orientação é feita com reuniões informativas ao longo do ano, especialmente no início do calendário letivo, para alinhar expectativa e prevenir problemas futuros. A mensagem é direta: organizar frequência e notas no começo do ano ajuda o atleta quando o calendário apertar, com competições, viagens e provas acumulando. A ideia é antecipar, não apagar incêndio.
Esse tipo de conversa também serve para “virar a chave” de veteranos e orientar novatos, deixando claro que rotina boa se constrói com repetição e que o fim do ano cobra com juros quem empurra com a barriga.
Em casos de defasagem escolar, o Sport também atua como força-tarefa. Quando chega um atleta que está fora da série ideal para a idade, um jovem de 17 anos ainda no fundamental, por exemplo, o trabalho aciona alternativas como a Educação de Jovens e Adultos (EJA), encaixando o estudante em um formato mais adequado, evitando constrangimentos e, principalmente, evitando perda de ano por falta de vaga ou atraso na matrícula.
É um trabalho que envolve acompanhamento, diálogo com a escola e estímulo constante, porque o desafio não é só burocrático: há vergonha, insegurança e diferença de rotina. E aí o papel do Leão é colocar o atleta de volta no circuito.
Gilvânia também reforça que a escola é uma etapa que sustenta o atleta para além do futebol, e que o Sport trabalha para que ele não trate isso como algo secundário.

“Eu sempre digo para eles: escola é primeiro plano. O seu conhecimento ninguém tira de você. E é isso que vai acompanhar o atleta em qualquer caminho que ele seguir.”
O cuidado com estudo também se conecta ao compromisso institucional do Leão como Clube Formador. Parte das exigências do Certificado envolve justamente garantir suporte educacional e social, com presença de profissionais específicos, rotinas de acompanhamento e comprovação de qualificação. Ou seja: o que acontece na escola, na van e no acompanhamento diário também faz parte do padrão de estrutura que o Clube precisa sustentar, não por protocolo, mas por responsabilidade com o que significa formar.
Esse caminho já aparece em exemplos dentro do próprio elenco. Alojado no CT e atleta do sub-17, o lateral Guilherme Silva, nascido em 2009 e que esteve na Copinha deste ano, está atualmente no terceiro ano do ensino médio, seguindo o percurso de escolaridade que a base reforça diariamente. Além de manter a rotina entre escola e treinos, o jogador já manifestou o desejo de continuar estudando após concluir essa etapa.
“Eu entendo que a escola faz parte do meu sonho também. O futebol é o que eu vivo agora, mas eu quero terminar o ensino médio bem e seguir estudando depois. Tenho muita vontade de fazer Educação Física, porque é uma área que tem tudo a ver com o meu dia a dia e com o que eu gosto. Aqui a gente aprende que responsabilidade não é só no campo, é em tudo”.
No Sport, o recado é simples e duro do jeito certo: o futebol pode ser o sonho, mas a escola é o chão. E é nesse equilíbrio, com estudo, presença e responsabilidade, que o Leão busca formar atletas melhores e pessoas mais preparadas para qualquer cenário, dentro ou fora do campo.
